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O comunicador, o religioso e a rola
Publicada em 16/07/2015 às 00:30:13

 

Por: Leonardo Rodrigues

Em meados do mês passado, o jornalista Ricardo Boechat ganhou destaque nas mídias e redes sociais após sugerir ao pastor Silas Malafaia procurar uma “rola”. No programa de rádio do dia 19 de junho, comandado pelo comunicador, o assunto tratado era a agressão sofrida por uma menina carioca por causa de sua religião. Porém, após seus comentários, o âncora do Jornal da Band tomou ciência de críticas sofridas pelo religioso no Twitter. O que se seguiu foi um Boechat afirmando que não daria “ibope” a Malafaia. Mas, para isso, gastou cerca de 4 minutos de seu programa de rádio.

Enquanto uns riam e outros se chocavam, todos repercutiam a recomendação do comunicador para o religioso procurar uma “rola”. Nada mais se falou da menina agredida e tão pouco algo relevante na discussão sobre intolerância – tema esse em que há necessidade urgente de um debate com seriedade, pois também permeiam nele confusões constantes entre ser de fato intolerante e ser livre para manifestar e uma opinião própria (sem ser imposta pelo Estado, religião ou modinhas). Mas isso é outro assunto.

O que fazer quando assuntos periféricos ganham enfoque maior que o tema tratado? Quando a pauta se perde na prolixidade dos personagens? Aprendi que cabe ao profissional ter o discernimento para manter fidelidade à pauta e não se deixar levar por distrações ou lábia do entrevistado e/ou de personagens próximos ao assunto proposto.

Espera-se “pulso firme” daqueles que estão no comando de um veículo de comunicação. Haja vista que funções como a de editor, ou âncora de um programa, requerem maturidade e tarimba dos profissionais mais experientes.

Postura

Pode parecer piegas, ou mesmo chata, uma critica à postura de um profissional que fez o que muitos poderiam querer. Isso é fácil deduzir, pois hoje tudo parece muito polarizado. Sempre precisa se estabelecer um protagonista e um antagonista. Porém, a definição de mocinhos e bandidos depende da ótica de quem vê. Boechat, como Malafaia, tem seus admiradores e aqueles que não se colocam em tal posição. Isso é natural.

Como o espaço aqui não tem o intuito de analisar o modus operandi eclesiástico de nenhum líder religioso, que se observe a postura do comunicador. Nesta vertente, a pergunta é: o que revela o frisson nas redes sociais com a sugestão do comunicador? Haveria algum efeito colateral na postura do jornalista nas gerações de novos profissionais?

Primeiro, a discussão sobre intolerância religiosa e a agressão que a menina sofreu se perderam em segundo plano. Ninguém repercutiu a pauta do programa. Segundo, Boechat, que afirmara não querer servir de palanque para Malafaia, doou quase quatro minutos de seu programa de rádio repercutindo o nome do líder religioso.

Em terceiro, mas não menos importante, Boechat infelizmente contribuiu com a era em que discussões são feitas a partir de frases de efeito. Costumo dizer que frases de efeito são similares a um tapa na cara, que poder arder, impressionar ao fazer barulho, mas dificilmente derruba alguém. Há certa tendência em confundir achismo com opinião e frase de efeito com argumento.

Tendências

O jornalista Steve Turner, da revista “Rolling Stone” e do jornal “The Times”, publicou recentemente no Brasil seu livro “Engolidos pela Cultura POP”. Nele, Turner considera que os jornalistas evidentemente buscam imparcialidade, exatidão, perfeição e equilíbrio, mas existem decisões conscientes e inconscientes que geralmente impedem que isso aconteça.

Ao abordar sobre suposições no jornalismo, ele comenta que editores e escritores apresentam suas tendências desde o começo por meio do que incluem e excluem em suas publicações. O que cabe também a apresentadores, sejam eles de rádio ou TV.

Turner cita em seu livro o jornalista Carl Bernstein, do “Washington Post”, famoso por sua cobertura da história de Watergate em 1970, que certa vez disse: “Nessa cultura de jornalismo instigante, estamos ensinando nossos leitores e nossos espectadores que o trivial é significativo, que o lúgubre e o insano são mais importantes do que notícias reais. Nós não servimos aos nossos leitores e espectadores; nós os alcovitamos (…). Em resumo, estamos no processo de criar o que merece ser chamado de uma cultura idiota (…). Pela primeira vez em nossa história, o estranho e o grosseiro estão se tornando nossa norma cultural, até mesmo nossa identidade cultural.”

Segundo o autor do livro, a mudança para o que tem sido chamado de “entretenimento informativo” significa que o trivial é geralmente colocado lado a lado com o importante e aquilo que é meramente engraçado, com o que realmente afeta a vida, como se fossem igualmente significativos.

No livro The Image, Daniel Boorstin cita que o jornalismo era um registro de acontecimentos que visava a aumentar o entendimento, mas passou a ser uma fabricação de acontecimentos para potencializar a diversão, o entretenimento. Com isso, assuntos relevantes, como a agressão da menina no Rio de Janeiro, ficam de lado.

Boorstin estava convencido de que as pessoas passaram a esperar mais dramaticidade e inovação do mundo que realmente existe, e que isso levou à criação do que denominou “pseudoeventos” – acontecimentos concebidos expressamente para serem relatados por jornalistas, mas eventos que não aconteceriam se não houvesse a oportunidade de serem transmitidos pela mídia.

O sentimentalismo tem seu espaço, mas não pode substituir a razão.

Leonardo Rodrigues é jornalista e chargista. Publicado originalmente no Observatório da Imprensa.

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